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Publicado por - 05/05/2013 - Psicanálise

A ética da humildade – Claudia Corbisier ( artigo publicado na Revista Cadernos de Psicanálise do CPRJ, ano XVI, número 8

V

A ÉTICA DA HUMILDADE

Cláudia Corbisier

 

Nau de Tempo Rei. Peter Pál Pelbart. Imago Edit. 1993.

O único sentido íntimo das cousas é elas não terem sentido íntimo nenhum Fernando Pessoa

 

Hoje o panorama da psiquiatria é múltiplo. Já não há mais uma psiquiatria, mas várias: social, biológica, psicanalítica, para citar as mais conhecidas. Essa multiplicidade, porém, nem sempre beneficia as pessoas que sofrem, porque o interesse está voltado muitas vezes não para o que seria melhor para cada caso em particular, e sim para o que é melhor para confirmar cada teoria. E cada teoria que confirma suas hipóteses pretende afirmar-se como aquela que, de fato, trata, cura e resolve os problemas, em detrimento de outras.Macabéa, personagem patética e maravilhosa de “A hora da estrela”, pergunta a certa altura: “ser feliz serve pra quê?”. E podemos perguntar para que e para quem serve nos colocarmos numa posição dogmática em relação ao conhecimento do sofrimento mental? Pode servir a múltiplos interesses – científicos, ideológicos, políticos, mas pouco servem a um interesse fundamental e prioritário: o da pessoa que enlouquece. Hoje, à beira do século XXI já sabemos que sabemos muito pouco sobre a loucura. A estonteante diversidade da clínica nos confronta diariamente com isso. Já sabemos que nos ditos casos mais difíceis, que são muitos, precisamos recorrer a vários recursos para conseguirmos algum sucesso: medicação, psicoterapia, terapia familiar, ocupacional, atividades esportivas, oficinas terapêuticas, etc. Com tudo isso, às vezes o fracasso é inevitável. ijlas, curiosamente, nem o fracasso clínico evita que nos mante-nnairíos agarrados a determinadas convicções teóricas. Às vezes tudo se passa como se não fosse possível reconhecer os próprios limites e admitir que uma outra forma de conceber a clínica possa ser mais eficaz para aquela situação específica. O que acontece freqüentemente é uma espécie de concessão a outros procedimentos, decorrente mais de uma imposição conjuntural do que da constatação dos limites de nosso conhecimento. E novamente podemos perguntar: isso serve para quê? Por que temos que pensará Ia Cecília Meireles: “Ou isto ou aquilo?” Por que não pode ser isto, aquilo e mais aquilo outro? Até quando o narcisismo vai impedir que as pequenas (e grandes) diferenças possam ser instrumento de avanço do conhecimento? Não deveríamos estar, biológicos, sociais, psicanalíticos e outros, às voltas com o mesmo problema? Afinal, apesar de todas as diferença sociais, econômicas, geográficas e políticas, as pessoas enlouquecem em qualquer lugar do mundo.

Teoricamente podemos acreditar que só o remédio cura a pessoa que sofre. Na prática constatamos que não cura, apesar de muitas vezes ser imprescindível. Ou podemos acreditar que só a escuta psica-nalítica cura. Sabemos que não cura, apesar de muitas vezes também ser imprescindível. E assim acontece com todas as formas de tratamento. Ou seja, a prática clínica nos mostra que cada procedimento pode ser imprescindível em determinados momentos, mas nos mostra também que estes não devem ser excludentes entre si, e mostra sobretudo que nenhum deles possui “a resposta mais adequada”. A diversidade da clínica recusa a hegemonia de um só conhecimento, de uma só técnica. Um mesmo quadro clínico presta-se a diferentes descrições e diferentes formas de ação. Portanto, a escolha das intervenções não deve partir de uma teoria que seja considerada “a mais verdadeira”, e sim da especificidade e necessidade daquela determinada configuração psíquica.Quando falamos de diferentes descrições de um mesmo quadro clínico, de um mesmo paciente, colocamos por terra a noção de que a loucura teria uma única forma de se apresentar, uma essência, uma propriedade qualquer independente dos termos em que é descrita. Sendo assim, domesticá-la pela medicação, ou significá-la pela escuta psicanalítica passam a ser apenas tentativas de abordá-las nas diferentes dimensões em que pode ser descrita, e não duas maneiras de controlá-la ou tratá-la, que disputam o privilégio de lidar com sua “essência”.Pensar a loucura dessa maneira supõe, em primeiro lugar, que estamos considerando que não existe A Loucura, e sim diferentes descrições de estados de loucura. A partir daí podemos falar, por exemplo, em estados psicóticos, ou em momentos de funcionamento psicótico de cada um. Estados e funcionamentos que se traduzem de forma idiossincrática em cada um, que produzem diferentes impactos em cada um, que aparecem na forma singular pela qual cada um age e reage diante da vida e das diferentes formas de intervenção. E importante observar: Não estamos afirmando que todas as pessoas têm um núcleo psicótico, que pode ser ativado dependendo das circunstâncias, como a teoria de Melante Klein propõe. Estamos sugerindo que exatamente não há núcleos, nem algo prévio ao aparecimento do comportamento psicótico. Que não há uma loucura, ou uma psicose que esteja lá, em algum lugar recôndito do nosso psiquismo em estado bruto prestes a irromper como lavas de um vulcão.

Falar de estados e funcionamento implica também uma mudança de atitude diante da clínica com implicações éticas importantes. Por exemplo, em relação ao diagnóstico. Uma pessoa pode ter o diagnóstico psiquiátrico de distúrbio bipolar do humor (PMD), e psicanali-ticamente pode ser descrita como tendo funcionamento histérico. São duas descrições que não devem excluir-se, em prol da própria pessoa, que por um lado poderá beneficiar-se da mediação que regule o transtorno do humor, e de outro lado, poderá beneficiar-se de uma análise que a ajude a elaborar seus conflitos. Mas para que isso seja possível, é preciso que tanto o psiquiatra quanto o psicanalista estejam de acordo quanto à existência das diferentes descrições, que possam admitir que essas descrições são igualmente importantes. Admitir que não há uma que seja “a verdadeira descrição do que realmente acontece”. O que acontece é que descreve-se os seus distúrbios do humor, e descreve-se os seus conflitos psíquicos, e descreve-se o que mais for importante no caso. Há casos onde alguém tem crises convulsivas e crises conversivas. Essa pessoa precisa tomar medicação anti-convulsivante e poderá beneficiar-se de um tratamento analítico. São duas descrições diferentes, com propósitos diferentes. É importante observar que os dois tipos de descrição não são redutíveis um ao outro.Em relação ao prognóstico as conseqüências éticas também não são irrelevantes. Quando pensamos em alguém que faz uma crise psicótica, constatamos muitas vezes a dificuldade em imaginar a sua evolução. Fazemos hipóteses, às vezes acertadas, e muitas vezes erradas. A evolução de cada crise, sua superação ou não, sua intermitência, sua melhora, sua piora, depende de uma multiplicidade de fatores, muitos dos quais não controlamos. Há pessoas que fazem o que os franceses chamam de “bouffée delirante aigüe”, (síndro-me psicótica aguda, de origem psicogênica, cujos sintomas principais são as alucinações e os delírios de temas múltiplos). O início é geralmente abrupto e a remissão da sintomatologia é rápida. Não há seqüelas, nem prejuízo quanto à reinserção na vida. E aí? Num caso como esse ocorre de não sabermos como a coisa chegou nem como saiu. Há pessoas que fazem crises iniciais catatônicas e depois passam a fazer crises paranoides. Há outras que fazem inicialmente crises hebefrênicas que evoluem surpreendentemente em configurações próximas de quadros neuróticos. Há quadros neuróticos que evoluem na direção de configurações psicóticas.Essa breve descrição de algumas formas de evolução clínica exigem no mínimo que tenhamos prudência ao falarmos de estruturas psíquicas rígidas, que uma vez definidas a priori contemplariam toda essa polimorfia e sinuosidade psíquica. Podemos, sem dúvida, usar a noção de estruturas clínicas, desde que não as concebamos como matrizes fixas cujo vocabulário esgotaria a realidade. Porém só podemos observar essa multiplicidade e irreverência com que os estados loucos aparecem e transitam no psiquismo humano se não tivermos uma teoria fechada, uma nosografia fechada na qual a clínica deva encaixar-se; se não acharmos que encontraremos a verdadeira natureza de cada quadro psíquico. Como acreditar num único modo de abordar a loucura, qualquer que seja o vocabulário em que esteja construído?Aprendemos com Austin (Austin: 1990a; Austin: 1990b), filósofo da linguagem ordinária, que as palavras têm uma força performativa, ou seja, são capazes de alterar estados psíquicos. E essa noção de Austin nos ajuda a compreender melhor porque um diagnóstico dado a alguém, muitas vezes precocemente, indevidamente, tem o efeito iatrogênico de fazer com aquela pessoa siga uma carreira psiquiátrica decorrente muito mais da sentença diagnostica do que de uma suposta “evolução natural da doença”. A evolução do quadro vai depender em grande parte do que se diz sobre o mesmo. Ou seja, a iatrogenia é em última instância produzida pela força performativa das palavras.Quantas pessoas perderam suas vidas, trancafiadas, por exemplo, na Colônia Juliano Moreira, porque aos vinte anos receberam um diagnóstico de esquizofrenia? Hoje, pesquisando os prontuários, fazendo ou refazendo as histórias, descobre-se que, em muitos casos, o diagnóstico não era bem esse. O único problema é que a vida dessaspessoas passou. E quem pode lhes devolver esse tempo? Tempo único de suas vidas? Bom, mesmo sem falar nessa radicalidade de existências perdidas, mesmo que o diagnóstico não implique internações desumanizantes, o ponto a ser ressaltado aqui é o da produção de doenças a partir do momento do estabelecimento do diagnóstico.Podemos dizer que Freud tinha a intuição dessa noção de Austin, quando falava que não devemos ceder quanto às palavras. Em português, faz muita diferença dizer que alguém é esquizofrênico, ou dizer que alguém está esquizofrênico. No segundo caso, estamos falando de um estado, que implica transitoriedade, possibilidade de mudança, esperança de movimento psíquico. Em contrapartida, no primeiro caso definimos a identidade, fixando-a e enclausurando-a na prisão das letras do diagnóstico, de onde dificilmente alguém consegue se livrar. A clausura das palavras talvez seja pior do que a dos muros do asilo, porque não há como derrubá-la. Alguém já ouviu falar de um ex-esquizofrênico? O diagnóstico é sem dúvida útil e necessário para definirmos a estratégia clínica dos tratamentos, mas inútil e pernicioso para definirmos as pessoas.Essa concepção do sofrimento mental na qual falamos de estados de loucura, de comportamentos psicóticos, é, a nosso ver, mais útil para as pessoas. Serve, por exemplo, para que olhemos para quem tratamos de forma menos cristalizadora, menos produtora de tristes e previsíveis futuros. Essa visão tem muita proximidade com algumas noções que compõem a visão da filosofia neo-pragmática americana. Para demonstrar essa afinidade, faremos uma apresentação esquemática de algumas idéias dessa tradição, que podem nos servir de bússola para pensar a clínica.Richard Rorty, (um dos autores mais representativos dessa corrente), diz, citando William James, que a procura da verdade não visa revelar a natureza intrínseca das coisas às quais se refere, mas sim as crenças que nos permitem atingir nossos fins e obter o que queremos. Em oposição a essa posição, tem-se a concepção de verdade da tradição objetivista, que adota a noção de verdade como correspondência. Nesta tradição, o critério de verificação da verdadeira racionalidade de uma justificativa é o seu grau de correspondência à realidade, à natureza intrínseca das coisas. É a tradição onde a procura da verdade é importante em si mesma, e não por que seja boa para alguém (Rorty: 1989, Rorty: 1991b). Em algumas interpretações da teoria psicanalítica encontramos atitudes clínicas que podem ilustrar o perigo que corremos ao achar que a clínica da psicose tem, por exemplo, um único modelo explicativo, onde todos os casos encaiintermitência, sua melhora, sua piora, depende de uma multiplicidade de fatores, muitos dos quais não controlamos. Há pessoas que fazem o que os franceses chamam de “bouffée delirante aigüe”, (síndro-me psicótica aguda, de origem psicogênica, cujos sintomas principais são as alucinações e os delírios de temas múltiplos). O início é geralmente abrupto e a remissão da sintomatologia é rápida. Não há seqüelas, nem prejuízo quanto à reinserção na vida. E aí? Num caso como esse ocorre de não sabermos como a coisa chegou nem como saiu. Há pessoas que fazem crises iniciais catatônicas e depois passam a fazer crises paranoides. Há outras que fazem inicialmente crises hebefrênicas que evoluem surpreendentemente em configurações próximas de quadros neuróticos. Há quadros neuróticos que evoluem na direção de configurações psicóticas.

Essa breve descrição de algumas formas de evolução clínica exigem no mínimo que tenhamos prudência ao falarmos de estruturas psíquicas rígidas, que uma vez definidas a priori contemplariam toda essa polimorfia e sinuosidade psíquica. Podemos, sem dúvida, usar a noção de estruturas clínicas, desde que não as concebamos como matrizes fixas cujo vocabulário esgotaria a realidade. Porém só podemos observar essa multiplicidade e irreverência com que os estados loucos aparecem e transitam no psiquismo humano se não tivermos uma teoria fechada, uma nosografia fechada na qual a clínica deva encaixar-se; se não acharmos que encontraremos a verdadeira natureza de cada quadro psíquico. Como acreditar num único modo de abordar a loucura, qualquer que seja o vocabulário em que esteja construído?Aprendemos com Austin (Austin: 1990a; Austin: 1990b), filósofo da linguagem ordinária, que as palavras têm uma força performativa, ou seja, são capazes de alterar estados psíquicos. E essa noção de Austin nos ajuda a compreender melhor porque um diagnóstico dado a alguém, muitas vezes precocemente, indevidamente, tem o efeito iatrogênico de fazer com aquela pessoa siga uma carreira psiquiátrica decorrente muito mais da sentença diagnostica do que de uma suposta “evolução natural da doença”. A evolução do quadro vai depender em grande parte do que se diz sobre o mesmo. Ou seja, a iatrogenia é em última instância produzida pela força performativa das palavras

Quantas pessoas perderam suas vidas, trancafiadas, por exemplo, na Colônia Juliano Moreira, porque aos vinte anos receberam um diagnóstico de esquizofrenia? Hoje, pesquisando os prontuários, fazendo ou refazendo as histórias, descobre-se que, em muitos casos, o diagnóstico não era bem esse. O único problema é que a vida dessaspessoas passou. E quem pode lhes devolver esse tempo? Tempo único de suas vidas? Bom, mesmo sem falar nessa radicalidade de existências perdidas, mesmo que o diagnóstico não implique internações desumanizantes, o ponto a ser ressaltado aqui é o da produção de doenças a partir do momento do estabelecimento do diagnóstico.Podemos dizer que Freud tinha a intuição dessa noção de Austin, quando falava que não devemos ceder quanto às palavras. Em português, faz muita diferença dizer que alguém é esquizofrênico, ou dizer que alguém está esquizofrênico. No segundo caso, estamos falando de um estado, que implica transitoriedade, possibilidade de mudança, esperança de movimento psíquico. Em contrapartida, no primeiro caso definimos a identidade, fixando-a e enclausurando-a na prisão das letras do diagnóstico, de onde dificilmente alguém consegue se livrar. A clausura das palavras talvez seja pior do que a dos muros do asilo, porque não há como derrubá-la. Alguém já ouviu falar de um ex-esquizofrênico? O diagnóstico é sem dúvida útil e necessário para definirmos a estratégia clínica dos tratamentos, mas inútil e pernicioso para definirmos as pessoas.Essa concepção do sofrimento mental na qual falamos de estados de loucura, de comportamentos psicóticos, é, a nosso ver, mais útil para as pessoas. Serve, por exemplo, para que olhemos para quem tratamos de forma menos cristalizadora, menos produtora de tristes e previsíveis futuros. Essa visão tem muita proximidade com algumas noções que compõem a visão da filosofia neo-pragmática americana. Para demonstrar essa afinidade, faremos uma apresentação esquemática de algumas idéias dessa tradição, que podem nos servir de bússola para pensar a clínica.Richard Rorty, (um dos autores mais representativos dessa corrente), diz, citando William James, que a procura da verdade não visa revelar a natureza intrínseca das coisas às quais se refere, mas sim as crenças que nos permitem atingir nossos fins e obter o que queremos. Em oposição a essa posição, tem-se a concepção de verdade da tradição objetivista, que adota a noção de verdade como correspondência. Nesta tradição, o critério de verificação da verdadeira racionalidade de uma justificativa é o seu grau de correspondência à realidade, à natureza intrínseca das coisas. É a tradição onde a procura da verdade é importante em si mesma, e não por que seja boa para alguém (Rorty: 1989, Rorty: 1991b). Em algumas interpretações da teoria psicanalítica encontramos atitudes clínicas que podem ilustrar o perigo que corremos ao achar que a clínica da psicose tem, por exemplo, um único modelo explicativo, onde todos os casos encaixam-se da mesma forma, na mesma fôrma. Escutamos inúmeros relatos de casos clínicos, tendo-se a estranha sensação que é sempre o mesmo. A riqueza da clínica é sacrificada em nome de uma necessidade meta-clínica, fundacionalista e apriorística da teoria. E isto serve para quem? Para os pacientes, com certeza, não serve

Retomando então, os pragmáticos descrevem a verdade como sendo o termo de aprovação de crenças justificadas. Para eles não há uma essência da verdade. Não há estatuto ontológico da verdade. Não há critérios de justificação extra-contextuais. Talvez possamos dizer que a verdade está nas crenças definitivamente provisórias. Isto na clínica pode nos servir como uma espécie de carta de alforria em relação à teoria, em relação a esse tipo de hierarquia epistêmica, onde a teoria é sempre posta como modelo no qual a prática deve encaixar-se (e quando não é assim, é a prática que está errada porque não correspondeu ao esperado pela teoria). Ficamos mais livres para criar e para inventar quando transformamos as algemas da teoria em utensílios que utilizamos da maneira que for mais útil para as pessoas.Rorty define o pragmatismo como baseado em três noções centrais: a) O anti-essencialismo; b) O nominalismo psicológico; c) O anti-representacionismo (Rorty: 1990)

O anti-essencialismo consiste na recusa em distinguir a natureza intrínseca de uma coisa (um objeto, um móvel, um ser humano, um elétron), de suas características acidentais ou puramente relacionais. Do ponto de vista pragmático, nenhuma característica do objeto é mais intrínseca do que outra. A tradição essencialista que Derrida chama de “ontoteologia” e Heidegger de “metafísica da presença”, sempre propôs-se a alcançar algo que estivesse “fora do jogo”, que não fosse puramente relacionai e nem pudesse variar com o contexto. A posição anti-essencialista abandona a distinção entre aparência e realidade, substituindo-a pelas noções de crenças úteis num determinado contexto, (por exemplo, do cotidiano), e outras que são úteis em outras situações, (por exemplo na física). Abandona-se o questionamento sobre a “adequação” da “linguagem ao mundo” e deixamos de nos perguntar se o espírito humano é capaz de atravessar o véu da aparência para atingir a verdadeira realidade. Para o anti-essencialismo ou holismo, ou contextualismo, todas as coisas variam ao mesmo tempo que o contexto e com o objeto da investigação, em particular.Aceitar o anti-essencialismo implica aceitar “o nominalismo psicológico”, concepção segundo a qual toda consciência é questão de linguagem. Para o nominalismo só existem crenças e desejos, que sãoatitudes relativas à enunciados, e não existem essências reais, diferentes das essências nominais. Rorty está de acordo com Nelson Goodman: não há o mundo “tal como ele é”. Nessa perspectiva, o objeto confunde-se com a totalidade daquilo que um determinado sistemas de crenças permite que seja dito a seu respeito. Um objeto pode ser a causa de mudanças em nossas crenças, mas isso não nos permite adequar nossas ações ao objeto em si próprio. A “natureza intrínseca” do objeto pode ser posta de lado. Como diz Rorty, citando Wittggenstein, trata-se somente de “uma engrenagem que não tem nenhum papel no mecanismo onde se formam nossas crenças e desejos”.

 

Aderir ao anti-essencialismo e ao nominalismo implica necessariamente aderir ao anti-representacionismo. Segundo Donald Davidson, as crenças são falsas ou verdadeiras mas não representam nada. São “hábitos da ação” e não modelos mentais para o mundo físico, como na concepção platônica (Peirce). No plano epistêmico todas as crenças têm o mesmo valor. Saber se existe uma “realidade dos objetos” deixa de ser uma questão relevante (Davidson: 1984, Rorty: 1991a).Rorty propõe que assimilemos as sugestões de Dewey e Nietzsche no sentido de substituir questões teóricas da filosofia como “O que é o homem?”, “O que posso conhecer?”, e substituí-las por questões práticas do tipo: “Quais os desejos que me pertencem que devo refrear e quais os que devo estimular? Que línguas devo falar? Que práticas coletivas devo adotar?” Tomando emprestadas essas noções ao pragmatismo podemos certamente navegar de forma mais livre e criativa no terreno da clínica do mental. Perdemos, é verdade, o conforto das âncoras que as concepções metafísicas e essencialistas nos dão. Deixamos de partir de premissas verdadeiras a priori, deixamos de ter certezas inabaláveis. Pensar e agir tendo como finalidade o “Para que serve?” no lugar do “O que é?” significa pôr a discussão ética em primeiro plano. Significa usarmos as teorias muito mais como bússola do que como âncora.Podemos designar este tipo de abordagem como sendo uma visão clínica anti-essencialista, que tem como uma de suas conseqüências uma maior possibilidade de ajuda às pessoas que sofrem. Não resta dúvida que adotar essa perspectiva implica difícil exercício, uma espécie de aeróbica psíquica de alto impacto. Implica nos distanciarmos da tradição filosófica ocidental, segundo a qual estamos acostumados a pensar e agir, onde há uma hierarquia entre conhecimento científico e conhecimento empírico, sendo o primeiro mais verdadeiro que o segundo. Onde estamos sempre a procura de critérios transcendentais que justifiquem nossas opções. Onde a linguagem apenas reflete o mundo, nossos pensamentos ou a realidade, e nos guia com segurança, quando os expressa verdadeiramente.

Na assistência psiquiátrica pública por exemplo, podemos verificar como é mais útil para a clientela o fato de usarmos nossas teorias como ferramentas para administrar o sofrimento psíquico. Em primeiro lugar, a própria noção de quem precisa de tratamento e quem não precisa é diretamente decorrente da posição em que nos situamos. O conhecido jargão “psiquiatrizar as pessoas” significa que tomamos muitas vezes como provas irrefutáveis de distúrbios psíquicos, problemas, que se forem contextualizados, são apenas dificuldades momentâneas dos indivíduos em resolver suas questões. A ajuda mais adequada então, a nosso ver, é a que só é possível se nos deslocarmos do “já sabemos” para o lugar do “queremos saber a partir de vocês”. Um exemplo ocorrido na Recepção Integrada do Hospital Pinei, no Rio de Janeiro. Uma equipe atendeu dois irmãos idosos que, trêsj meses antes, haviam apresentado um quadro psíquico semelhante: insônia terminal, humor deprimido, abulia, alterações da memória de fixação, emagrecimento importante, irritabilidade, apragmatismo. Conversando com outros familiares soube-se que eles haviam se mudado, por sugestão de parentes, de uma cidade pequena no interior da Bahia (onde haviam vivido a vida toda), para o Rio. Depois de alguns dias da chegada começaram a apresentar o quadro descrito acima. A equipe então sugeriu que talvez fosse interessante pensar na volta deles para a Bahia. O alívio foi grande, a sugestão foi aceita. Pois bem, nesta conduta tão simples está contida a possibilidade de reconhecer que nem sempre os recursos que temos mais a mão, mais palpáveis e mais definidores de nossa identidade profissional, são os mais adequados para quem nos procura. Qual seria a conduta mais habitual e avalizada pela comunidade científica? Diagnosticar os dois velhinhos como deprimidos, medicá-los com anti-depressivos e quem sabe, encaminhá-los para um grupo de idosos. Esse procedimento pode ser classificado, em oposição ao que sugerimos acima, de clínica essencialista. Aqui o que determina a conduta é a suposição que existe uma depressão que se objetiva como uma entidade em si, que ganha vida própria, desligando-se dos contextos onde apareceu. E a vida dos velhinhos? E a perplexidade deles diante da selva que é o Rio de Janeiro? Só podemos levar isto em conta se não acreditarmos que exista uma essência da depressão, independente dos contextos, dos dramas, das tragédias do dia-a-dia de cada um. Torna-se mais fácil ajudar se pensarmos em comportamento deprimido, ao invés de depressão, porque quando falamos em comportamento deprimido, levamos em conta inúmeros ingredientes peculiares da vida de cada um, como, por exemplo, o próprio vocabulário que cada pessoa usa para descrever o seu estado depressivo, a maneira idiossincrática de cada um relacionar-se com um determinado sintoma, os recursos diversos de que cada um dispõe para lidar com a situação.Dois outros exemplos, um ocorrido numa enfermaria do Centro Psiquiátrico Pedro II, e o outro na recepção do Hospital Jurandyr Manfredini, na Colônia Juliano Moreira. R., um rapaz de 24 anos, foi internado com uma sintomatologia psicótica grave. Apresentava alu-cinações auditivas imperativas. Estas vozes lhe davam ordens que ele não podia deixar de cumprir. Sentia-se permanentemente perseguido, acusado de ser “Viado”, o que lhe fazia agir de modo agressivo com todos que o cercavam. Muitas vezes teve que ser contido, apesar das altas doses de medicação anti-psicótica que tomava. R. começou a apresentar esses sintomas aos 15 anos. Desde então, passou a ser internado toda vez que tinha uma crise. A família relatou que os médicos sempre haviam dito que o caso dele era muito grave, e que o tratamento mais adequado era “medicação e internação”. R. foi piorando ano a ano e, no entanto, a prescrição para o “seu caso” continuava sendo a mesma. A medicação funcionava para ele como sedativo e não tinha quase nenhum efeito nas suas idéias persecutórias e nas alucinações. R. de fato assustava as pessoas, que sempre se afastavam dele. Diante dessa situação, a equipe podia ter aderido ao “veredicto” dado a R. e mantido a mesma conduta. R. já podia ser considerado um “crônico”, ou seja, aquele paciente que tem “defeito esquizofrênico” sem possibilidade de conserto. E não haveria nenhum escândalo em se pensar assim. Afinal, o diagnóstico estava feito, e o tratamento adequado também. E sempre mais seguro para nós pensarmos que é o paciente que não responde ao tratamento porque é “rebelde”, do que pensarmos que pode ser o tratamento que não é adequado para o paciente. Pensar assim significa sairmos do nosso conforto, e sobretudo reconhecermos que o que sabemos está permanentemente sendo posto em cheque pela prática. Essa equipe pôde fazer isso. Uma das técnicas começou a atendê-lo num espaço psicoterápico, (apesar do inusitado que significava propor um tratamento verbal para alguém que parecia desconhecer a linguagem como meio de comunicação), e R. foi podendo falar aos poucos sobre o inferno em que vivia. Estabeleceu uma relação de confiança com a pessoa que o atendia, ou se, quisermos, uma transferência positiva, que foi o alicerce para R. começar a organizar-se psiquicamente, conseguindo assim proteger-se das invasões alucinatórias. A partir desse tratamento foi possível para R. estruturar minimamente a sua vida. Passou a morar sozinho, voltou a estudar, começou a falar de namoradas. R. continuava ouvindo algumas vozes, sem sentir-se tão invadido. Não batia mais em ninguém, e passou a considerar possível a convivência com as pessoas. E importante deixar claro que este exemplo não tem o objetivo de fazer a apologia dos tratamentos psicoterápicos. Deu certo neste caso, como podia não ter dado. O mais importante foi a possibilidade de não se tomar nem o diagnóstico, nem a longa história de internações, nem a reticência da família quanto à possibilidade de melhora, como impedimento para propor-se algo novo, que ainda não havia sido tentado. E mais, tentar algo que costuma ser questionado por muitos psicanalistas, que é a psicoterapia de um paciente psicótico “crônico”.

O terceiro caso foi o de dona M. Estava muito triste e queria perguntar aos médicos se devia tomar remédios. A tristeza era intensa, o choro permanente. Ao lhe perguntarmos sobre o motivo de seu estado, contou que havia perdido uma neta de quinze anos, fazia um mês. Sugerimos que viesse conversar algumas vezes com uma técnica no ambulatório. Dona M. dizia que continuava fazendo suas tarefas domésticas, cuidando dos outros netos, e de si própria também. Estava com o apetite diminuído, com dificuldade em conciliar o sono, sentia uma enorme tristeza e uma saudade imensa de sua neta. Revoltava-se com o fato de ter havido erro diagnóstico no início da doença da menina. O que foi tratado durante um ano como “problema de coluna”, era um câncer. Dona M. dizia que costumava fazer chá de alface, e que sentia-se muito bem depois de tomá-lo. Mas de todo jeito, queria saber a opinião dos médicos sobre a necessidade de tomar remédios. A nossa conduta nessas conversas foi a de legitimar o que dona M. já estava fazendo (chás), e de lhe dizer que era normal que estivesse triste, já que havia tido uma grande perda. Dissemos-lhe também que os remédios não lhe ajudariam mais que o seu chá. Dona M. ficava muito surpresa ao escutar esse tipo de coisa, e ficava repetindo, como que para se convencer: Quer dizer que eu não preciso de remédio? Quer dizer que eu não preciso de psiquiatra? Nem de tratamento? Quer dizer que o meu chá é bom? A senhora acha isso mesmo? Até que conquistou a convicção que não podíamos fazer por ela, nem mais, nem melhor do que ela própria estava fazendo, e ficou satisfeita. O que queremos enfatizar neste caso é que se não estivermos atentos, podemos psiquiatrizar, como neste caso, o luto normal das pessoas.

I

Basta, para isso, estarmos preocupados em diagnosticarmos psiquiatricamente todos os casos que nos chegam. Dona M. precisou de ajuda para acreditar que estava sabendo suportar e lidar com a sua dor.

E interessante observar que, como os conflitos e as situações dj/ fíceis são o feijão com arroz da condição humana, muito facilmente podemos escorregar e cair na tentação de enquadrarmos as pessoas em diagnósticos e tratamentos específicos para cada diagnóstico. Agindo assim estamos’sendo, sem dúvida, politicamente corretos. Nossos diplomas e teorias legitimam estas condutas. Por outro lado, hoje já sabemos que a demanda que muitas vezes engarrafa nossos ambulatórios é criada em grande parte pelo nosso olhar “psiquiatrizador”, no sentido lato do termo, e não pelas pessoas que nos procuram. Quando aderimos ao que sabemos de forma incondicional ficamos numa posição equivalente à de alguém que faz um delírio do qual não duvida sequer um instante. E, podemos perguntar, como é possível tratar da onipotência com onipotência?

As teorias são fundamentais, mas devemos usá-las como instrumentos para modificar a realidade, para produzir novas realidades. São ferramentas úteis das quais precisamos enquanto nos servem. Se precisarmos de várias ao mesmo tempo, porque não aceitar? Isso significa nos colocarmos numa posição mais humilde diante do que conhecemos e do que desconhecemos. Talvez uma ética da humildade. Por quê não?

Claudia Corbisier

Psicanalista, ex membro do Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro, coordenadora da Recepção Integrada do Hospital Philippe Pinei, do Ministério da Saúde (1991 – 1995)

 

BIBLIOGRAFIA

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