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Publicado por - 31/07/2013 - Psicanálise

“Antes da ciência acabar com a magia” Sidarta Ribeiro

O resgate dos sonhos

  • ROBERTA JANSEN
Publicado:
O aniversário. Tela de Marc Chagall, de 1915, revela atmosfera onírica que marca obra do pintor: sonhos ganham respaldo da neurociência em estudos do Instituto do CérebroReprodução

RIO – Sonhos já foram premonitórios. Revelaram importantes conteúdos do inconsciente nos processos psicanalíticos. Ultimamente, no entanto, vinham sendo relegados a meros subprodutos biológicos do sono. Um acumulado de imagens fragmentadas, restos do nosso dia, sem maiores significados. Agora, um cientista está resgatando a importância das imagens geradas quando dormimos, comprovando que elas podem, sim, ajudar no diagnóstico de transtornos mentais, revelar traumas e estados psíquicos, e ainda indicar avanços ou revezes nos tratamentos.

O diretor do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Sidarta Ribeiro, e sua equipe estão reabilitando as teorias de Sigmund Freud (1856-1939), ao elaborar modelos matemáticos que corroboram algumas das ideias do médico austríaco criador da psicanálise. Sob o título de “Sonhos, memórias e loucura”, o trabalho será apresentado pelo especialista no Rio de Janeiro, durante a série de conferências “Cérebro em foco – as grandes questões da neurociência”, que acontece a partir do próximo dia 12 (e a cada segunda segunda-feira dos meses seguintes até novembro), no Colégio Brasileiro de Cirurgiões, em Botafogo (veja a programação completa em www.ibro2015.org/).

– Sonhos, memórias e loucura têm uma relação íntima – sustenta Ribeiro. – A fonte dos sonhos e também das alucinações psicóticas são o nosso banco de memórias, aquilo que Freud chamou lá atrás de inconsciente. Apenas uma pequena fração das nossas memórias está ativada neste momento. Essa fração, algo como 0,01%, é o que chamamos de consciente. Algumas memórias estão disponíveis para serem recrutadas no momento da demanda. Outras, no entanto, estão no inconsciente e só surgem nos sonhos ou nos delírios.

Modelos matemáticos desenvolvidos pelo grupo de Sidarta Ribeiro, com base em estudos feitos no instituto, revelam, por exemplo, que ao narrar o que fizeram no dia anterior, pessoas com transtorno bipolar, esquizofrenia e sem nenhum problema mental apresentam uma estrutura de linguagem bastante similar. No entanto, quando narram os sonhos, a estrutura muda radicalmente, revelando, facilmente, quem tem algum transtorno. O modelo, diz o especialista, já está sendo usado para auxiliar no diagnóstico de problemas mentais.

– Os sonhos revelam muito do que vai na mente da pessoa – constata Ribeiro. – Uma hipótese é de que isso ocorre porque o sonho é uma construção totalmente privada, feita exclusivamente por cada um. Uma outra hipótese é que, como os sonhos são algo geralmente um pouco difíceis de lembrar, a pessoa entra com a imaginação para preencher as lacunas, criando narrativas próprias, o que seria revelador de como a sua mente funciona. Uma terceira possibilidade, é que existe, como foi notado desde Freud, uma relação muito estreita entre sonho e psicose. A psicose, na verdade, seria o sonho acordado. O sonho é revelador justamente por ser muito parecido.

O conteúdo dos sonhos, diz Ribeiro, está relacionado ao nosso inconsciente, ao nosso banco de memórias. Mas, geralmente, diz respeito a questões mais graves, a problemas que nos preocupam.

– Sonhamos com aquilo que nos importa, com aquilo em que nossa emoção está colocada – resume o neurocientista. Por isso mesmo, as imagens geradas durante o sono podem ajudar a revelar traumas e também o avanço ou não do tratamento utilizado.

– Por exemplo, se você sofrer um trauma forte, se for atacado por um tubarão, vai sonhar com isso, digamos, por 30 dias – explica Ribeiro. – Depois disso, continuará tendo pesadelos, mas não com tubarão propriamente, talvez com algum outro tipo de ameaça, que tenha alguma relação semântica. À medida que estiver em processo de cura, essa distância semântica vai aumentar, até os pesadelos desaparecerem.

Um processo semelhante, afirma Ribeiro, ocorre quando as pessoas passam por separações traumáticas.

– É um padrão interessante – diz o cientista. – Os primeiros sonhos, em geral, são de negação daquela realidade, sonham que nada aconteceu, que está tudo bem. Depois, começam a sonhar que a pessoa morreu ou que ela morreu, sempre tragédias, pesadelos. A seguir vem a fase dos sonhos que simulam o futuro, em que ele está com alguém ou o ex-cônjuge está com outra pessoa. Por fim, o tema some do repertório dos sonhos, à medida que a pessoa segue em frente.

A análise desse tipo de sonho pode indicar não apenas os traumas, mas também em que ponto do processo de cura ou superação a pessoa se encontra. Justamente como sugeriam as teorias de Freud.

– Eu sou dessa linha, acho que neurociência está resgatando Freud – afirma. – Dez anos atrás, diriam que eu estava doido, mas acho que essa visão está voltando. Acho que a neurociência vai dar uma respeitabilidade científica para um ramo que ficou, durante muito tempo, destacado da ciência. Acho que vamos trazer também novas ferramentas para a psicoterapia e a psiquiatria.

Ribeiro defende a ideia de que devemos voltar a prestar mais atenção aos sonhos, como nossos antepassados faziam, “antes de a ciência acabar com a magia”, em suas palavras.

– A gente vive numa cultura que não dá valor ao sonho – constata. – Até 200 anos atrás, ninguém tomava nenhuma decisão importante sem prestar atenção nos sonhos. Nossa sociedade parece ter esquecido que os sonhos refletem nossas emoções, o nosso passado e, de certa maneira, tentam refletir o futuro: como será o amanhã baseado no que ocorreu ontem? O sonho, de certa forma, é uma simulação de um futuro possível.

Nem sempre é fácil se lembrar dos sonhos. E isso acontece por uma razão biológica simples. No momento do sono mais profundo, onde ocorrem os sonhos, não há liberação de noradrenalina, responsável pela consolidação das memórias. Quando acordamos, a liberação da substância se restabelece.

– Se acordarmos e, imediatamente, levantarmos da cama, dificilmente nos lembraremos dos nossos sonhos – explica Ribeiro. – A dica é acordar e ficar ainda deitado por um tempo, esperando a liberação da noradrenalina se restabelecer, e tentando lembrar do que sonhamos. Costuma funcionar. Sugiro também que as pessoas mantenham um caderno, ao lado da cama, para anotar os sonhos.

Brasil é sede de congresso

Passado o agito da Jornada Mundial da Juventude, depois da Copa do Mundo e antes da Olimpíada, o Brasil continuará na rota dos grandes eventos internacionais. Em 2015, o país sediará, pela primeira vez, o Congresso Mundial do Cérebro, que a cada quatro anos reúne os maiores especialistas da neurociência. A disputa foi acirrada, mas o Rio de Janeiro conseguiu bater concorrentes de peso, como Dublin e Toronto.

Popularizar a neurociência e arrecadar fundos para viabilizar o congresso é o objetivo da série de conferências “O cérebro em foco”, que começa no próximo dia 12, com a apresentação de Suzana Herculano-Houzel, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O evento ocorrerá uma vez por mês, até dezembro, com a presença de outros grandes nomes da neurociência nacional, como Stevens Rehen, Sidarta Ribeiro, Luiz Eugenio Mello, e Roberto Lent.

– Se funcionar, se tivermos a adesão do público, o objetivo é, no ano que vem, trazer grandes nomes da neurociência internacional, como Oliver Sacks, para falar no Rio e em São Paulo – explica Roberto Lent, da UFRJ, responsável pela organização do congresso mundial. – E o objetivo é duplo: levantar recursos para o evento e popularizar os grandes temas da neurociência.

Para Lent, popularizar a ciência, de uma forma geral, é fundamental.

– Em primeiro lugar, o cidadão tem direito de saber o que o Brasil está fazendo nessa área – explica o cientista. – Em segundo, trata-se de uma questão pedagógica: as pessoas precisam se instrumentar para tomar um monte de decisões que a neurociência tangencia, como aborto, pesquisas com células-tronco, eutanásia. Se o cidadão tiver uma aproximação maior com os temas da ciência, ele poderá tomar decisões mais qualificadas.

Segundo o neurocientista, é fundamental também que os jovens sejam familiarizados com o raciocínio científico, com o método científico.

– Não é para puxar brasa para a minha sardinha, mas acredito que a neurociência é uma das frentes mundiais da pesquisa no século XXI – afirma Lent. – Há implicações éticas e abordagens socialmente relevantes relativas ao direito, à educação, à clínica, à neurologia. E há uma série de problemas sociais que têm interface com a neurociência, como as doenças do sistema nervoso (caso do Alzheimer) e problemas degenerativos, que se tornam cada vez mais prevalentes com o aumento da expectativa de vida, e também outras enfermidades, como a obesidade, que tem uma conexão forte com a regulação do metabolismo alimentar pelo hipotálamo.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/saude/o-resgate-dos-sonhos-9210301#ixzz2aatsVDiL
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