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Publicado por - 10/02/2013 - Psicanálise

Artigo revista Polêmica

Grupo barriga e mãe bebê masthead_image1_1329194687

            Claudia Corbisier é psicanalista, com pós-graduação em Psiquiatria, no Instituto de Psiquiatria da UFRJ e na Sorbonne, Paris V, Université René Descartes, Paris. Formação em Psicanálise no Centre de Formation et Recherches Psychanalytiques, Paris, e no Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro. Atualmente doutoranda do Programa de Pós-Graduação de Psicologia da PUC, Rio de Janeiro.Pesquisadora Associada do LIPIS

e-mail: claudiacorbisier@gmail.com

 http://www.polemica.uerj.POLÊM!CA. ISSN 1676-0727 – Volume 8 ) – outubro/dezembro 2009 

O grupo Barriga e a mãe-bebê (*)

The belly group and the mother- child relationship

 

Resumo:

 

Este artigo tem como objetivo fazer uma abordagem winnicotiana de grupos terapêuticos. A proposta é uma analogia entre o grupo e relação mãe-bebê; caracterizada pela metáfora do grupo como uma barriga, cheia de bebês. Esta barriga/grupo sendo tomada como um espaço transicional, entre o fora (mundo) e o dentro (a subjetividade de cada participante). Cada sessão é descrita como um parto, no qual os conceitos de ambiente suficientemente bom, holding, handling, apresentação de objetos, sentimento de confiança, são utilizados para desenvolver a analogia. A partir desta analogia, mostramos como, no decorrer destes processos no grupo, as pessoas podem se redescrever subjetivamente, retomar o seu potencial criativo, ter uma vida mais real e feliz.

Palavras-chave: Grupo, relação mãe-bebê, espaço transicional, ambiente suficientemente bom, subjetividade, potencial criativo.

Abstract: This paper intends to investigate therapeutics’ groups from a Winnicott’s perspective. The proposal consists on making the analogy between the groups and the relationship mother-child; this one being featured by the metaphor of a group like a big belly full of babies. This belly/group, being taken like a transitional space, between the outside (world) and the inside (the subjectivity of each person). Each session is described like a childbirth, in which the concepts of an environment good enough, holding, handling, object’s presentation and trust-feeling, are used to develop this analogy. Since this analogy, we show how, in the course of this group’s process, people can rewrite themselves, find their creative potential, in order to have a more real and happy life.

Key-words: Group, relationship mother-child, transitional space, environment good enough, subjectivity, creative potential.

(*) Este artigo faz parte do projeto de tese o grupo como dispositivo de humanização do trabalho”, que está sendo desenvolvido no programa de Pós-Graduação de Psicologia Clínica da PUC- Rio, orientado pela professora Junia de Vilhena.

O grupo Barriga e a mãe-bebê

Introdução:

Os grupos foram até hoje, desde a época da faculdade, o meu principal recurso para escutar as demandas de cada local; sempre em grupo. A partir destas escutas, pude criar novas maneiras de tratar as necessidades de cada contexto, criando novas possibilidades de transformar o status quo, ou se quisermos, aquilo que está instituído, para usar o vocabulário de Deleuze. A partir dai, utilizando noções de Winnicott, tais como: holding, handling, apresentação de objetos, ambiente suficientemente bom, espaço transicional, propor de forma talvez ousada, uma analogia entre o grupo e a relação mãe-bebê; e o grupo como um espaço transicional, que não está fora, nem dentro, mas sim no meio, entre os diferentes espaços do viver.

Podemos começar a pensar em fazer uma analogia entre trabalho e função materna? Algo da ordem destas primeiras experiências entraria em jogo na relação das pessoas com o trabalho? Quando algo não vai bem e inicia-se um processo de adoecimento estaria a pessoa revivendo situações dos primeiros meses de vida, nos quais se o ambiente falha o bebê certamente desenvolverá mecanismos de defesa que serão utilizados mais tarde, em momentos da vida nos quais o ambiente torna-se agressivo, desfavorável? Isto pelo ângulo daquilo que falha. Pelo lado daquilo que funciona, digamos aquilo que, no trabalho é estruturante, podemos pensar que algo dessa primeira relação com a mãe-ambiente, foi suficientemente bom e faz do indivíduo alguém criativo, capaz de interagir com o ambiente de forma produtiva, podendo inclusive fazer das adversidades fonte de desafios a serem superados.

O Grupo como uma barriga, seus bebês, conversando com Winnicott:

Aqui pensamos que a abordagem grupal pensada Winnicotianamente pode nos ser útil para pensar várias questões, inclusive a do grupo como podendo cumprir a função de “ambiente suficientemente bom”; para o difícil trabalho de viver.

Neste ponto, me permito fazer uma proposta: será que é possível pensarmos o grupo numa analogia com esta unidade inicial – mãe/bebê? Seria assim – imaginar o grupo como uma espécie de ventre grávido, sempre parindo novas criaturas! A mãe, ou sua figura, pode ser o grupo em si, como se fosse uma grande barriga, cheia de fetos – no sentido de que “antes de nascer”, são seres que ainda não interagiram com aquele ambiente, com aqueles irmãos, com aquela mãe, ou mães (nos casos em que se trabalha em co-terapia). Seguindo esta imagem, o início de cada grupo seria um parto. As pessoas acabaram de nascer, logo não se conhecem, e precisam, portanto, iniciar um processo de fusão inicial com aquele ambiente, onde ninguém se conhece, (mesmo que já se conheçam, estou considerando aqui cada sessão como um parto), não há discriminação de quem é quem, para que, aos poucos, num ambiente de confiança, possam interagir de maneira mais criativa com aquele ambiente.

Segundo Pedro Salem, (2007) no artigo em que discute a confiança e hábito em Winnicott e J. Dewey três noções básicas apóiam a compreensão da confiança na fase da confiança absoluta: o holding, o handling e a apresentação de objetos (pg:172)..

Winnicott considera o tema do holding e do handling como expressões da confiabilidade humana.

Neste sentido, diz que o psicanalista, pressupondo um estado de não integração do recém nascido, justifica a importância da presença do ambiente como solo para a tarefa de cooperar para a preservação da continuidade do vir a ser do bebê. Em função disto, os processos de holding e handling começam antes da constituição egóica. Datam de um momento da sociabilidade do bebê que precede sua diferenciação do outro.

Em seguida, exemplifico como os mecanismos sugeridos por Winnicott, acontecem na sessão de grupo, seguindo a metáfora do grupo-barriga.

 

a) O holding no grupo:

Podemos então imaginar a importância do grupo-barriga, como sendo o suporte inicial necessário para que as pessoas sintam-se suficientemente seguras (holded). Claro que aqui em nossa metáfora, o período de não-integração, corresponde ao estado psíquico dos “bebês” do grupo; que ainda não conhecem aquele ambiente, e formam, com os outros um todo indiferenciado. Vemos então, a importância do holding neste contexto, como sendo a condição de possibilidade dos “bebês” e dos terapeutas em fornecer uns aos outros o suporte para que o processo de personalização aconteça. Winnicott define o holding inicial como o “primeiro ambiente do bebê, um “suporte confiável” que deve existir desde o momento que começa a linha da vida do bebê estabelecendo uma continuação da “provisão fisiológica que caracteriza o período pré-natal” (1990, p:49).

b) O handling no grupo:

Assim como também, o handling, que abrange todos os cuidados que a mãe dá ao bebê, transportamos para o grupo, a importância da maneira como as relações acontecem, no que se referem à linguagem utilizada, os gestos, os olhares, a receptividade, a paciência com as dificuldades, a delicadeza no lidar com o desconhecido-todo. O lidar cuidadoso com o momento da chegada, a escolha dos lugares, os comentários ainda em off, a aparência em seus detalhes –  roupas (aparência arrumada ou não), o uso de adereços, maquiagem, o cabelo: penteado, despenteado, limpo, sujo, os eventuais presentes para o(s) terapeuta(s), os atrasos e suas justificativas eventuais, comentários sobre os terapeutas, tentativas de estabelecer uma comunicação individual antes do início da sessão.

c) A apresentação de objetos no grupo:

Com relação à apresentação de objetos, Pedro Salem no mesmo artigo citado acima, escreve:

É apenas por meio de objetos que possam se ajustar à sua competência corporal que a criança tem sua experiência criativa preservada, podendo então se descobrir “equipada com alguma capacidade de ver tudo de um novo modo, para se criativa em todos os detalhes do viver (1999e, p.25).

No grupo a cada instante, novos objetos são apresentados a todos. Presença, ausência, palavra, gesto, corpos em movimento, diferenças, espantos, não-ditos, olhares, piscares de olhos, silêncios, confissões, depoimentos, reações inesperadas. Cada participante “apresenta” seu jeito, suas histórias, seus comentários, sua maneira de lidar com os outros, de se apresentar no grupo, de falar de suas questões, de se calar, sua forma de participar. E é nesta “apresentação de objetos” que cada um tem a possibilidade de se descobrir como um – de se separar/aproximar do outro, na medida em que se diferencia dele.

d) O sentimento de confiança:

Sabemos que para Winnicott é na noção de obstáculo que permite que o bebê possa estabelecer o não-eu. Pedro Salem, citando Costa:

“Em outros termos, a confiança do bebê no ambiente se desloca para a resistência que este impõe à sua agressividade, indicando-lhe os limites de sua onipotência e permitindo uma delimitação mútua tanto dos objetos, quanto do próprio ego do bebê. A criança passa a confiar naquela parte do mundo que lhe é fundamentalmente indistinta – como no caos da insegurança inicial -, mas naquela parte do mundo que sobrevive aos seus impulsos persistindo como não-eu, que se lhe impõe como na constituição de seus próprios contornos. Nessa nova etapa, é lidando criativamente com os obstáculos que o indivíduo pode seguir na saúde realimentando continuamente “a experiência de unicidade de si que acompanha e dá sentido às mudanças do self na interação com o meio” (Costa, 2002, p.72)

A cada início de grupo, todos estão ali fundidos no todo do grupo. Um dos aspectos que constatamos é a possibilidade das singularidades aparecerem no processo da diferenciação de cada um, em oposição à singularidade do outro. A oposição àquilo que “é não-eu”, é o exercício inerente a presença de um, no meio de outros. Por outro lado, para poder enfrentar o outro, é preciso também que as condições mencionadas anteriormente estejam presentes. Executar uma tarefa, tratar de questões pessoais, elaborar um projeto, discutir um autor, fazer uma aula de dança, avaliar demandas numa emergência psiquiátrica (Corbisier.1994), para citar alguns exemplos de grupos existentes, exigem o enfrentamento da diferença, o confronto com a alteridade. Requer poder existir como eus juntos, mas necessariamente em oposição aos não-eus.

e) O grupo como espaço transicional:

Neste tópico pretendo propor o grupo como um espaço transicional – entre a experiência contemporânea do culto ao individualismo, e a possibilidade de cultivar, criar e também recuperar antigas formas do relacionar-se. O espelho atual das pessoas não reflete a própria imagem – exige uma imagem ditada pela mídia, na qual a perfeição, a juventude permanente, a homogeinização das formas dos corpos são as palavras de ordem. Esta imagem destrói a singularidade das pessoas, e as tiraniza em direção à busca de uma suposta perfeição. Esta busca, que suprime a possibilidade de cada um poder enxergar a própria imagem, suprime também a possibilidade de enxergar o outro. O fato de estar em grupo é um caminho para recuperar a própria imagem, a partir do olhar do outro, sempre imperfeito e real. Assim como, para Winnicott, o bebê precisa se ver refletido no rosto da mãe. (Winnicott, 1975)

O reunir-se em rodas para rezar, dançar, silenciar, brincar, fez parte da história da humanidade há séculos, em diferentes tipos de sociedades. A experiência de estar em grupo promove efeitos que ligam as pessoas concretamente, e desta ligação surgem possibilidades de vínculos de vários tipos. Pessoas reunidas em grupo por motivos diversos experimentam possibilidades criadas pelo simples fato de terem se juntado ali.

a)      O conhecer-se: é o primeiro efeito de estar num grupo. Que no início pode até ser vivido como uma obrigação. Estamos habituados a viver achando que não precisamos dos outros. O mito cruel contemporâneo. Mas logo surge a vontade de conhecer os outros, de saber o que esperam dali, para que estar ali juntos? – a vontade de conviver e de compartilhar.

b)      O comunicar-se: é a conseqüência natural das vontades acima citadas. Para conhecer é preciso vencer as próprias barreiras, e ir em direção ao outro. Falar de si, querer escutar – a vontade da troca humana.

c)      O enfrentamento com a diferença: esta troca implica o difícil exercício de lidar com as diferenças. Saber escutar, no tempo do outro, saber falar no seu tempo, pensar sobre o que é dito e refletir, ter paciência com as dificuldades de cada um, respeitar e aprender a falar sobre pontos de vista diferentes sem que isto signifique altercação, É a diferença que amplia o mundo.

d)      Haveria outros aspectos para citar; mas estes me parecem simples e profundos para justificar a proposta do grupo como espaço transicional – transição entre os eus solitários do mundo de hoje para eus acompanhados da riqueza do compartilhar a experiência de outros.

A guisa de conclusão:

Uma citação de Winnicott sobre como vê sua abordagem quanto à importância do ambiente:

“Ela permite estudar e discutir ao mesmo tempo os fatores pessoais e ambientais. Nesta linguagem normalidade significa tanto saúde do indivíduo como da sociedade, e a maturidade completa do indivíduo não é possível no ambiente social imaturo ou doente … podemos dizer que o ambiente favorável torna possível oprocesso continuado dos processos de maturação…” (Winnicott 1979: 80)

Esta citação nos permite reafirmar o quanto, para Winnicott, a saúde mental dos indivíduos está intrinsecamente ligada ao ambiente.

Um dos principais objetivos do grupo é exatamente criar um espaço suficientemente bom, como propusemos acima, um espaço transicional, no qual cada participante poderá reviver de uma forma compartilhada, acolhedora, a experiência de viver. Aquilo que foi vivido na infância como perturbação do desenvolvimento, pode ser reelaborado, redescrito, a partir da experiência de reviver – na troca afetiva com os outros. Colocando Winnicott para conversar com Spinoza, “os bons encontros potencializam o corpo e a alma”, assinalamos a convergência de idéias entre o psicanalista e o filósofo, com relação à possibilidade da retomada daquilo que foi despotencializado, distorcido pelo ambiente desfavorável, para uma retomada do potencial criativo, do processo de maturação, a partir das condições favoráveis encontradas no grupo.

 

Referências Bibliográficas

CORBISIER, C. A escuta da diferença na emergência psiquiátrica. In: Psiquiatria sem hospício. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1992. pp. 9-16.

Costa,J.F. “ Criatividade, transgressão e ética”, in Bezerra Jr,B. & Plastino,C.A. Corpo, afeto e linguagem: a questão do sentido hoje. Rio de Janeiro, Contracapa, 2002.

Safra,G, A Po-Ética na Clínica Contemporânea, Editora Idéias e Letras, Aparecida, São Paulo, 2004.

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Salem, P. Reflexões sobre confiança e hábito em D.D.Winnicott e J. Dewey, In: Bezerra Jr & Ortega (orgs), Winnicott e seus interlocutores, Rio de Janeiro,  Relume-Dumará, 2007. pp172 a 177.

Winnicott D, O Brincar e a Realidade, Rio de Janeiro.Imago, 1971

____________ Da Pediatria à Psicanálise.  Rio de Janeiro, Francisco Alves1978.

___________ O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre.Artes Médicas, 1979.

_____________ Explorações Psicanalíticas. orgs Winnicott,C, Shepard,R, Davis,M.

Porto Alegre.Artmed, 1994.

       

2 Comments

  1. Gostei imensamente Cláudia! Pensei muito no grupo que estamos tentando criar!Toda a “potencia” criativa e expansiva que ele pode vir a ter, como todos os grupos, teoricamente “barrigas grávidas” destes sujeitos provindos de seu pertencimentos. E pensei nos cuidados iniciais necessários,coisa a que estamos atentos e podendo começar a fazer…

  2. Obrigada querida amiga e colega Ana Maria! Esse artigo fez parte da minha tese de doutorado, defendida na PUC, em 2011: Grupos e criatividade; para uma clínica mais humana e solidária! Exatamente, estamos numa sintonia fina muito bacana! Beijão

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